raindrops keep falling on my windshield
Você tem que ter acesso a um carro, necessariamente. E algumas condições de momento, como tempo livre, de preferência em uma tarde de um dia de muito sol, aquele bem quente, que chamamos de sol de chuva. Aquela tarde bonita, mas que lá pelas quatro, cinco horas da tarde começa a escurecer com umas nuvens pesadonas e negras. Nuvens de chuva, de tempestadade
de verão, pingos gordos caindo do céu ainda com a luz do sol de alguma maneira iluminando, aquele barulho de saraivada no asfalto, na grade, no vidro da janela, o cheiro meio acre que produz a chuva ao encontrar o asfalto ainda quente.
Mas não espere a chuva começar a cair. Tudo vai acontecer minutos antes da chuva grossa despencar. Parate y mira. Corra pra garagem logo quando os fiapos de nuvem começarem a se aglomerar nuns chumaços pretos. Comece a dirigir em direção a eles.
Mas não basta estar no carro, em meio ao trânsito parado ou numa seqüência de ruazinhas de paralelepípedo. Não vai adiantar. Procure uma avenida, grande e larga e vazia. De preferência vá para uma estrada. É difícil de achar sim, mas você precisa de espaço para acelerar o carro, não se sabe quando você deve começar e tampouco por quanto tempo.
Se você seguiu todos os passos até aqui, tudo está quase acontecendo. Meio inclinado, apoiado no volante, você tenta olhar se aquele paredão já está sobre você. O primeiro raio risca o céu e o barulho do trovão ecoa com força no seu ouvido. A última nesga de sol vai se esvaindo. O primeiro pingo cai contra o seu pára-brisa. Acelere um pouco mais.
Começou. Ele se espatifa, gordo e espaçoso. O barulho é seco, molha o vidro. Então a mágica aparece. Do pingo vai saindo um filete d'água, tímido, que começa a obedecer à natureza da posição do pára-brisa e vai escorrendo em direção ao capô do carro. Você ainda não notou a mágica.
Mais pingos, espaçados e em intervalos irregulares, começam a se espatifar no vidro. Mas você deve continuar a prestar atenção no
primeiro pingo, agora filete, serpenteando na parede de vidro abaixo.
Como que por um capricho, o filete pára de despencar. O vento, filho da velocidade, que você gerou, começa a espalhar o fiapo para os lados e impede que ele continue a seguir a ordem natural, a tal lei da gravidade. É agora.
O filete, que já foi pingo, é moldado agora somente pela vontade do vento. Toma uma forma irregular, como que num amontoado de pequenas gotas e começam a galgar pára-brisa acima.
Vence os primeiros centímetros, passa exatamente à altura de seus olhos, fixos e admirados, e seguem em movimento convulsivo,
ultrapassam o seu campo de visão e rumam para a capota do carro.
Você nunca tinha prestado atenção nisso, e enquanto você acompanhava estático o primeiro pingo, seus irmãos de nuvem continuam a proporcionar o espetáculo. Já são cinco, seis, dez pingos que se chocaram nesse atribulado muro de vidro bem à frente do seu nariz. Os filetes se fundem, unidos na tarefa de vencer a lógica banal da geometria do pára-brisa. Vão subindo e subindo, com o vento cortando e moldando, mudando a cada segundo a sua trajetória e forma, mas sempre subindo.
Quanto tempo durou? Vinte segundos, um, dois minutos? Você não precisa saber disso. Você ainda nem sabe porque fez tudo isso, porque seguiu essas instruções, não onde quer chegar e como ainda continua a dirigir. A chuva tomou conta do espetáculo solitário dos primeiros pingos, dominou toda a área do pára-brisa. O vento, teimoso que é, continua a soprá-los para cima, mas sabe que quando a chuva chega, acabou o seu reinado. A água recobre toda a muralha envidraçada. Vai ter de ligar o limpador. Ele vai
ajudar o vento a se livrar dos intrusos, que agora se juntam em bloco e atingem em massa. Ele vai expulsá-los pelos lados, freneticamente tentando reaver o território perdido.
Você já escuta a música no rádio e percebe que alguns outros carros também se aventuram a atravessar a chuva. Mas só você sabe que não era a chuva a importante e tem a certeza que a mágica aconteceu em todos os pára-brisas ao seu lado, mas que ninguém a viu como você.
Ainda sem entender muita coisa, a sua gota se inveja toda e despenca rosto abaixo. Exibição inútil. O vento está do lado de fora e ela não tem a quem tentar vencer. Ela desce até encontrar a primeira borda de tecido da sua camisa. Você dirige o carro em direção ao primeiro retorno que encontra.
Nada faz sentido ainda, mas aconteceu. Sabe que vai repetir.
E vai continuar a se surpreender.
posted by Daniel at 3:07 p.m.
Constatações empíricas de uma madrugada assisitindo o Top 500 da MTV
Você percebe que o indie cagou o mundo quando o clipe de
Last Nite dos Strokes está à frente de
In Bloom, do Nirvana.
Você percebe que a MTV cagou o mundo quando
Kiss From a Rose, do Seal está mais bem colocado que o tal
Last Night.
posted by Daniel at 4:48 a.m.